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Do entrudo às escolas: a formação do carnaval carioca

O carnaval do Rio de Janeiro é resultado de uma longa transformação cultural. Antes de sambódromos, carros alegóricos e transmissões televisivas, a festa ocupava ruas estreitas, praças, salões e casas particulares, reunindo práticas europeias, costumes africanos e formas populares de celebração.

A história dessa manifestação acompanha mudanças profundas na sociedade brasileira. O entrudo colonial deu lugar aos cordões e ranchos; os ranchos abriram caminho para as sociedades carnavalescas; e o samba, inicialmente perseguido, tornou-se a principal linguagem do carnaval carioca.

Compreender esse percurso ajuda a perceber que a festa não nasceu pronta nem pertenceu a um único grupo social. Ela foi construída por trabalhadores, músicos, comerciantes, intelectuais, autoridades, comunidades negras e moradores de diferentes regiões da cidade.

As raízes europeias e o antigo entrudo

As origens mais remotas do carnaval estão ligadas a festas populares europeias realizadas antes da Quaresma, período de quarenta dias de penitência no calendário cristão. Em várias regiões, era comum suspender temporariamente regras de comportamento, organizar banquetes, usar máscaras e promover brincadeiras públicas.

Em Portugal, essas práticas chegaram ao Brasil com o nome de entrudo. A palavra designava um conjunto de divertimentos realizados nos dias que antecediam a Quaresma, incluindo batalhas de água, farinha, limões de cheiro e outros objetos. No Rio de Janeiro colonial, o costume ganhou características próprias e se espalhou por ruas, sobrados e áreas de comércio.

O entrudo podia ser familiar e relativamente organizado dentro das casas, mas também assumia uma forma mais intensa nas ruas. Escravizados, libertos e trabalhadores pobres participavam ativamente dessas brincadeiras, embora fossem frequentemente retratados pelas autoridades como uma ameaça à ordem pública. A festa já revelava, portanto, as tensões sociais que marcariam o carnaval nos séculos seguintes.

Durante o século XIX, médicos, jornais e administradores passaram a criticar o entrudo por considerá-lo violento, insalubre e incompatível com a imagem de modernidade que as elites desejavam para a capital do Império. A tentativa de substituí-lo não eliminou a festa, mas abriu espaço para formatos mais regulamentados e visualmente inspirados nos carnavais europeus.

Ruas, máscaras e controle no Rio imperial

A expansão do Rio de Janeiro transformou o carnaval em um acontecimento urbano. A população se concentrava em áreas como a região central, a Cidade Nova, o Campo de Santana e a Praça Onze. Nesses lugares, grupos diversos se encontravam para desfilar, tocar instrumentos, fantasiar-se e acompanhar cortejos.

As chamadas sociedades carnavalescas surgiram como organizações estruturadas, muitas vezes formadas por comerciantes, profissionais liberais e membros das camadas mais abastadas. Elas promoviam bailes, desfiles com carros alegóricos e apresentações luxuosas. Os préstitos buscavam apresentar uma imagem disciplinada e civilizada da folia, em contraste com a reputação desordeira atribuída ao entrudo.

Também ganharam força os cordões, blocos populares compostos por foliões fantasiados, músicos e personagens simbólicos. Com instrumentos de percussão, apitos e cantos coletivos, os cordões ocupavam o espaço público de modo mais espontâneo. Sua estética incorporava referências religiosas, africanas, indígenas e teatrais, criando uma linguagem própria da cultura de rua.

A relação com o poder público era ambígua. As autoridades proibiam algumas práticas, autorizavam outras e concediam licenças para desfiles específicos. A legislação sobre festas, circulação e uso das ruas ajudava a definir quem podia brincar, em quais horários e com quais instrumentos. Para entender como regras desse tipo afetam a vida coletiva, a consulta a orientações jurídicas oferece um ponto de partida útil.

Cordões, ranchos e a organização da folia

No final do século XIX e no começo do século XX, os cordões se tornaram uma das principais expressões do carnaval popular carioca. Muitos reuniam moradores de bairros pobres, trabalhadores portuários, estivadores, vendedores, artesãos e músicos. A participação exigia preparação de fantasias, ensaios e a escolha de um repertório capaz de animar o desfile.

Os ranchos carnavalescos nasceram de uma combinação entre tradições populares, cortejos religiosos e modelos musicais organizados. Diferentemente de muitos cordões, apresentavam enredo, comissão, instrumentos melódicos e uma estrutura visual mais definida. O rancho também valorizava a marcha-rancho, gênero de andamento mais lento e caráter melodioso, que se tornou marcante na música brasileira.

Entre os grupos mais conhecidos estavam o Ameno Resedá, o Flor do Abacate e o Rancho Reizinho. Eles ajudaram a consolidar o desfile como espetáculo, com fantasias elaboradas, alegorias e temas narrativos. A presença dos ranchos demonstrava que o carnaval popular possuía planejamento artístico, hierarquia interna e grande capacidade de mobilização.

Essas agremiações também criaram redes de sociabilidade. A sede do grupo servia para ensaios, reuniões, festas e decisões comunitárias. Em um período de desigualdade e repressão cultural, organizar um cordão ou rancho era uma maneira de ocupar a cidade, preservar tradições e afirmar a existência de bairros e comunidades inteiras.

O samba encontra a avenida

O samba carioca se desenvolveu em um ambiente de encontros entre batuques de origem africana, lundus, maxixes, modinhas, choro e outras formas musicais. A população negra teve papel decisivo nesse processo, especialmente nas áreas próximas ao centro e nos bairros que recebiam trabalhadores vindos de diferentes partes do país.

A região da Praça Onze tornou-se um dos símbolos dessa formação. Conhecida como espaço de convivência de comunidades negras, baianas, músicos e foliões, ela abrigava rodas de samba, terreiros, ranchos e blocos. Personalidades como Tia Ciata são lembradas pela importância de suas casas como locais de encontro musical e cultural.

A gravação de “Pelo Telefone”, em 1917, costuma ser apresentada como um marco inicial do samba registrado em disco. A história da música é mais complexa do que uma autoria individual, pois envolveu criação coletiva, circulação de melodias e disputas sobre composição. Ainda assim, o episódio evidencia a passagem do samba de ambientes comunitários para o mercado fonográfico.

Na década de 1920, blocos e grupos começaram a adotar formas de desfile mais próximas das escolas de samba. O Deixa Falar, fundado no Estácio em 1928, é frequentemente considerado a primeira escola de samba. A expressão “escola” remetia à ideia de ensinar e praticar uma nova maneira de tocar, desfilar e organizar o samba.

Período Principais manifestações Transformação cultural
Séculos XVII e XVIII Entrudo doméstico e de rua Adaptação de costumes europeus ao ambiente colonial
Século XIX Sociedades carnavalescas, cordões e bailes Regulamentação da festa e disputa pelo uso das ruas
Início do século XX Ranchos, blocos e rodas de samba Organização comunitária e valorização de novas formas musicais
Décadas de 1930 e 1940 Escolas de samba e concursos Reconhecimento institucional do samba e dos desfiles
Final do século XX até hoje Sambódromo, blocos e transmissão televisiva Profissionalização, expansão turística e preservação de tradições

A consolidação das escolas de samba

Na década de 1930, as escolas de samba passaram a receber maior atenção da imprensa e do poder público. Em 1932, ocorreu um dos primeiros concursos oficiais de escolas, organizado pelo jornal Mundo Sportivo. A competição ajudou a estabelecer critérios para os desfiles e fortaleceu a ideia de que o samba poderia representar a identidade cultural do Rio de Janeiro.

O governo de Getúlio Vargas percebeu o potencial simbólico das manifestações populares. O samba e o carnaval foram incorporados a projetos de construção da identidade nacional, embora o reconhecimento viesse acompanhado de controle e exigências. As escolas precisavam se adequar a regulamentos, apresentar temas definidos e manter uma estrutura compatível com os eventos oficiais.

A partir dos anos 1940, os enredos passaram a destacar episódios da história do Brasil, personagens políticos, mitos nacionais e referências culturais. Essa escolha colaborou para aproximar o desfile de uma narrativa pública sobre o país. Ao mesmo tempo, muitas escolas preservaram elementos ligados à religiosidade afro-brasileira, à memória dos bairros e às experiências das comunidades.

O crescimento das escolas trouxe mudanças na música e na estética. A bateria ganhou maior importância, o samba-enredo se consolidou, e os carros alegóricos ficaram mais complexos. Costureiras, artesãos, compositores, intérpretes e coreógrafos passaram a trabalhar durante meses para preparar uma apresentação que durava apenas alguns minutos diante do público e dos jurados.

Do centro histórico ao sambódromo

Durante boa parte do século XX, os desfiles ocuparam diferentes avenidas do centro do Rio. A Avenida Rio Branco recebeu apresentações importantes, mas o crescimento do público e das agremiações exigia uma estrutura mais permanente. O carnaval passou a atrair visitantes de outros estados e do exterior, aumentando sua relevância econômica e turística.

Em 1984, foi inaugurado o Sambódromo da Marquês de Sapucaí, projetado por Oscar Niemeyer. A Passarela Professor Darcy Ribeiro estabeleceu um espaço próprio para o desfile das escolas de samba do Grupo Especial e de outras divisões. A construção trouxe maior organização, visibilidade e capacidade de transmissão, além de separar a apresentação carnavalesca do tráfego cotidiano da cidade.

A profissionalização alterou a escala do espetáculo. Alegorias gigantes, fantasias sofisticadas, iluminação, efeitos especiais e equipes especializadas passaram a integrar o desfile. A figura do carnavalesco ganhou destaque, unindo pesquisa histórica, direção artística e planejamento visual. O samba-enredo, por sua vez, tornou-se peça central da apresentação e passou a ser lançado meses antes do carnaval.

Essa transformação trouxe ganhos e contradições. O desfile alcançou reconhecimento internacional e movimentou cadeias de trabalho ligadas ao turismo, à confecção, à música e ao entretenimento. Porém, os custos elevados podem dificultar a participação de comunidades menores, enquanto o calendário comercial e a cobertura televisiva influenciam decisões artísticas das escolas.

Memória, identidade e diversidade na festa

O carnaval carioca é frequentemente descrito como uma celebração da mistura cultural, mas essa ideia precisa ser examinada com cuidado. A formação da festa contou com contribuições africanas, europeias, indígenas e populares, porém essas influências não tiveram o mesmo reconhecimento ao longo do tempo. A valorização do samba ocorreu depois de décadas de repressão a práticas negras e periféricas.

A presença de religiões afro-brasileiras, de símbolos de ancestralidade e de personagens históricos negros aparece em muitos enredos. As escolas também passaram a abordar escravidão, racismo, desigualdade, resistência cultural e trajetórias de líderes que foram excluídos das narrativas oficiais. Com isso, o desfile funciona como entretenimento, obra artística e espaço de disputa por memória.

A própria linguagem usada para descrever cores, fantasias e símbolos revela como a cultura se modifica. Pesquisar a origem dos nomes das cores pode ajudar a compreender como palavras, referências visuais e costumes circulam entre sociedades e épocas. No carnaval, cada tonalidade escolhida para uma ala ou alegoria costuma participar de uma narrativa maior.

Além das escolas de samba, os blocos de rua continuam fundamentais. Cordões tradicionais, blocos de bairro e grandes cortejos contemporâneos mantêm a festa espalhada por diferentes regiões. Alguns preservam repertórios antigos; outros misturam marchinhas, samba, funk, pop, maracatu e música eletrônica. Essa diversidade mostra que o carnaval não se resume ao espetáculo da Sapucaí.

Formas de observar o carnaval carioca

  • Compare o desfile das escolas de samba com os blocos de rua, observando diferenças de organização, repertório e participação popular.
  • Pesquise a história dos bairros ligados ao samba, como Estácio, Cidade Nova, Saúde, Gamboa e Madureira.
  • Escute marchinhas, sambas-enredo, choros e sambas antigos para acompanhar a transformação dos instrumentos e das formas de cantar.
  • Analise os enredos como documentos culturais, identificando quais personagens, conflitos e grupos sociais recebem destaque.
  • Visite museus, centros culturais, quadras de escolas e acervos digitais que preservam fotografias, fantasias, partituras e relatos de antigos foliões.

A trajetória do carnaval no Rio de Janeiro permanece em movimento. Novas escolas, blocos e coletivos reinterpretam tradições, enquanto comunidades antigas defendem seus espaços e suas formas de brincar. Conhecer essa história permite enxergar a festa para além do brilho das alegorias: ela é uma construção social feita de música, trabalho, memória, conflito e criatividade.

Explore outros conteúdos históricos e culturais da Squadra para ampliar sua pesquisa sobre festas populares, linguagem, arte e formação da sociedade brasileira. Ao compartilhar esse conhecimento, você ajuda a preservar as muitas vozes que transformaram as ruas do Rio em um dos maiores símbolos culturais do país.

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